Benefício cardíaco da semaglutida não se explica só pela perda de peso, sugere análise do ensaio SELECT
Uma nova análise do ensaio SELECT, com 17 604 doentes, concluiu que as alterações no peso, perímetro da cintura, pressão arterial e marcadores sanguíneos explicaram, no máximo, cerca de metade da redução de eventos cardiovasculares com o fármaco.
A semaglutida, um agonista do recetor GLP-1 usado na diabetes e na obesidade, reduz o risco de eventos cardiovasculares graves. Um estudo publicado no European Heart Journal a 23 de setembro procurou perceber que parte desse benefício resulta da perda de peso e da melhoria de outros fatores de risco clássicos.
Os dados
A equipa, liderada pela professora Helen Colhoun, da Universidade de Edimburgo, reanalisou o SELECT — um ensaio aleatorizado em que metade de 17 604 pessoas com excesso de peso ou obesidade (sem diabetes) recebeu semaglutida e a outra metade placebo. Durante dois anos, os investigadores acompanharam o peso, o perímetro da cintura, a pressão arterial e análises ao sangue — incluindo colesterol e marcadores de diabetes, inflamação e função renal — e relacionaram-nos com as taxas de enfarte, AVC e morte cardiovascular.
O resultado
Quem tomou semaglutida perdeu peso, reduziu a cintura e melhorou as análises, e teve cerca de 20% menos eventos cardiovasculares graves. Mas, fossem quais fossem os fatores de risco analisados, isoladamente ou em conjunto, não explicavam mais de metade dessa redução. Colhoun disse que os resultados sugerem que a semaglutida deve ser vista como um medicamento que reduz a doença cardiovascular, “e não apenas um medicamento para emagrecer”.
O que mais pode estar em jogo
O mecanismo é desconhecido. Entre as explicações propostas estão efeitos anti-inflamatórios não totalmente captados pelos marcadores medidos e efeitos diretos no músculo cardíaco ou no revestimento dos vasos sanguíneos.
Limitações
A análise assenta em estimativas estatísticas de risco, e a recolha de dados do ensaio foi afetada pela pandemia de COVID-19. Alguns participantes podem ainda ter perdido peso por outras razões, como a fragilidade, que aumenta em vez de reduzir o risco cardiovascular. Um editorial que acompanha o artigo, do professor Subodh Verma, da Universidade de Toronto, e colegas, classificou a conclusão como “adequadamente humilde” e afirmou que a falta de um mecanismo claro não deve impedir o uso destes fármacos na prevenção de eventos vasculares.
Também disponível em: EnglishСаха тылаРусскийEspañol中文العربية